Dia Mundial da Refrigeração 2026: Entrevista com António Granjeia
Especialista em Refrigeração
23 de junho, 2026
A propósito do Dia Mundial da Refrigeração, que se assinala na próxima sexta-feira, 26 de junho, a AIPOR - Associação dos Instaladores de Portugal publica durante esta semana, um conjunto de entrevistas e testemunhos, sobre a importância do tema no contexto do mercado português.
Em 2026, e sob o mote «Cool Intelligence», é fundamental refletir sobre temas emergentes como a digitalização, a sustentabilidade e as políticas que estão a transformar a Refrigeração.
Hoje publicamos uma entrevista com António Granjeia*, Especialista em Refrigeração, onde reflete sobre o mercado português e os desafios que Portugal tem pela frente.
AIPOR - Qual a importância do Dia Mundial da Refrigeração no contexto do setor AVAC em Portugal?
ANTÓNIO GRANJEIA - A proliferação e banalização de “Dias de.” para tudo e todos os temas, retirou impacto positivo a estas iniciativas. A AIPOR e bem, no meu entender, decidiu divergir deste conceito já gasto, criando à volta do Dia Mundial de Refrigeração uma semana de reflexão e divulgação transversais a várias “partes interessadas” sobre o que na realidade são os desafios que se colocam ao setor da Refrigeração, incluindo inteligentemente nesta ação o setor do AVAC. Com efeito muitas e grandes empresas de AVAC apostaram em trazer soluções modernas de Refrigeração em linha com a sua larga experiência na conceção, fabrico, manutenção e comercialização de Equipamentos do tipo “plug in ou split”, colmatando assim a falta de experiência e saber, a nível global, de muitos operadores/instaladores para as novas tecnologias compatíveis com os novos refrigerantes com GWP«150, propano e R744(CO2) .
AIPOR - O tema escolhido para o Dia Mundial da Refrigeração de 2026 é «Cool Intelligence», um conceito que sublinha a necessidade de conceber, instalar e gerir sistemas de arrefecimento e aquecimento de forma consciente e responsável. Como avalia a forma como em Portugal, o setor utiliza hoje a tecnologia e a inteligência artificial neste segmento de mercado ao serviço também das exigências ambientais? ANTÓNIO GRANJEIA - A «Cool Intelligence» na Refrigeração Comercial e Industrial baseada em equipamentos autónomos ou sistemas frigoríficos centralizados, vulgo “centrais”, criou a necessidade de melhorar o desempenho dos mesmos via desenvolvimento de finos sistemas de controle inteligentes para o “casamento” de centrais/compressores, condensadores/gás, coolers e evaporadores. A implementação desta «Cool Intelligence» envolveu clientes finais, projetistas, fabricantes de equipamentos, ventiladores e controles e instaladores, sendo Portugal por exemplo um percursor na utilização de ventilação com comutação eletrónica em 2004. Esta adesão, competente e sustentada de “todas as partes interessadas”, foi um imperativo de desenvolvimento por questões de consumo de energia e gestão centralizada das instalações frigoríficas. Com efeito, os consumos de energia da Refrigeração num supermercado rondavam os 50% do consumo energético total do mesmo. Nesta evolução há que prestar a devida homenagem pelo enorme trabalho, desafio, aposta e esforço financeiro envolvido a nível de grandes clientes finais e/ou, em particular, dos seus gabinetes técnicos ou gabinetes de projetistas contratados para o efeito, logrando assim um salto qualitativo nas suas instalações com redução efetiva do impacto ambiental, da pegada de CO2 e da respetiva otimização do desempenho, aplicação ao uso, eficiência, controle fino em tempo real, local e/ou remoto, com antecipação de “set point” adequados por exemplo às previsões meteorológicas ou alterações a nível logístico. Os resultados foram tão bem-sucedidos que valores de TCO (Total Cost of Owenership), de TEWI (Total Equivalent Warming Impact), de cotas de CO2, por exemplo, passaram a fazer parte das equações de avaliação de novos investimentos lada a lado com outras variáveis como ROI (Return of Investment), CAPEX ou OPEX.
AIPOR - Quais os principais desafios e constrangimentos que o setor da Refrigeração enfrenta atualmente em Portugal?
ANTÓNIO GRANJEIA - As “soluções” de produção de frio ditas centralizadas , com a migração para refrigerantes sintéticos com GWP«150 ou naturais , devido a novas tecnologias de conceção, fabrico e instalação e respetiva certificação, parte dela “in situ”, face aos custos de desenvolvimento e formação envolvidos, limitaram a oferta de um confortável número de instaladores no mercado, reduzindo margens negociais para os clientes finais e aumentando o tempo de execução de novos empreendimentos ou renovações de instalações. Apesar das vantagens, no meu entender, da utilização de sistemas centralizados de produção e controle de frio, nomeadamente sua redundância e eficiência em part load/carga parcial como acima referido, levaram o setor de AVAC com todo o seu poder económico, sofisticação, otimização de meios técnicos, de desenvolvimento/produção em fábrica e “saber fazer” a desenvolver soluções modulares tipo “plug-in ou split”, com mentalidade quase para “utilizador final”, neste caso para instaladores menos informados e experientes nos novos refrigerantes e tecnologias ou para grandes instaladores poderem ser concorrenciais a nível de pequenas e médias “lojas de Conveniência”. Esta decisão das empresas tradicionalmente de AVAC aumentou o leque de opções dos clientes finais, “democratizando” assim o acesso às novas tecnologias e refrigerantes por parte de instaladores mais pequenos ou com menos recursos humanos ou económicos para a necessária formação muitas vezes colmatada também por assistência técnica dos seus fornecedores “in situ”! Esta nova “geometria” de “frigoristas e fabricantes” obviamente reduziu o “élan” a nível de formação de técnicos com uma visão global de uma instalação frigorífica, mas tirando na atividade política, não há soluções perfeitas, pelo que foi um desafio ganho pelo setor de AVAC! Atualmente coexistem pacificamente as duas abordagens, “frio centralizado ou modular”!
AIPOR - No segmento da Refrigeração, sente que há lacunas na formação e certificação profissional? Se sim, quais e em que medida devia haver mais aposta nesta matéria?
ANTÓNIO GRANJEIA - Sempre existiu e existirá a formação negócio, “a metro” disponibilizada por empresas sem grandes recursos técnicos e humanos, vocacionadas para a dita “formação” e lucro fácil. Esta não interessa e deveria ser controlada e penalizada. Felizmente existem, em menor número, excelentes empresas de formação em Refrigeração, mas poucas Escolas a querer ensinar uma Especialidade na qual o emprego está garantido. Talvez para estas escolas a Refrigeração & AVAC seja pouco nobre e tenha excelentes e experientes técnicos bem atentos “à produção de papers” para curriculum pessoal!
Como principais lacunas na formação temos por exemplo:
Boa formação teórica e prática sobre as boas regras da arte/Sound Engineering Practices-SEP em Refrigeração que “ajudam” por exemplo os formandos a perceber os “como” e os “porquês” de existirem instalações tecnologicamente avançadas em termos de equipamento utilizado, mas com mau desempenho, consumos acima dos previstos, câmaras e móveis frigoríficos que não atingem as temperaturas de exercício e avarias não cobertas pelos fabricantes de equipamento, por resultarem de uma má técnica de execução da instalação ou desconhecimento das referidas “regras da arte”;
Boa formação técnica e prática em termos de manutenção curativa e preventiva;
Boa formação a nível do enquadramento legal da atividade;
Boa formação teórica e prática a começar nos princípios básicos da Refrigeração, alargada a conceitos ou saber em Termodinâmica Aplicada, Mecânica de Fluidos, Hidráulica, por exemplo, conforme o nível do curso, lado a lado com sólidos, formação de eletricidade e eletrónica de potência e controle, cada vez mais necessária e nem sempre devidamente acautelada em Formação, académica ou profissional. Só isto garante técnicos que conhecem e sentem o que se passa nos equipamentos ou instalações.
AIPOR – Numa Era em que o clima e as alterações climáticas estão na ordem do dia, o setor do Frio e Climatização está desafiado a entregar soluções tecnológicas em qualidade e quantidade que respondam à emergência climática. Considera que Portugal, o setor AVAC e a refrigeração em particular, neste caso, estão no bom caminho?
ANTÓNIO GRANJEIA - Este conceito de “Emergência Climática” tão usado por políticos ou ambientalistas bem-falantes, que nada fazem ou produzem para lhe fazer face, permite-lhes despertar o interesse de muitas pessoas/votos. Os Técnicos, por outro lado, conscientes e sabedores do verdadeiro impacto das alterações climáticas e das medidas úteis que no dia a dia tomam para limitar ou mitigar o efeito das mesmas, quando ouvem falar desta “emergência urgente” já ficam com um pé atrás, à espera de mais e mais regulamentação, cega e pouco útil, mas custosa em termos de implementação no terreno, produzida por burocratas não técnicos em Bruxelas ou no País, com suporte escondido e lobby de grandes multinacionais. Mais revoltante é o facto de esta dita “regulamentação ambiental” penalizar as partes interessadas na área da Refrigeração, utilizadores finais e fabricantes europeus, deixando a sua não aplicação a fabricantes e produtos de outras geografias, casos em que a verdadeira “pegada de CO2” não é devidamente avaliada e penalizada! Neste contexto é uma pena que projetistas não da especialidade continuem a fazer e conceber edifícios e outros espaços vocacionados para a excelência da Arquitetura, do design moderno e futurista desrespeitando, por exemplo, o que já se sabe sobre os microclimas no centro das grandes cidades e as medidas passivas adequadas para mitigar os seus efeitos e demais boas regras da arte para esta atividade.
AIPOR - Que mensagem gostaria de deixar aos profissionais do setor neste Dia Mundial da Refrigeração?
ANTÓNIO GRANJEIA - Com quase 50 anos dedicados em exclusivo à Refrigeração, seja na vertente projeto, instalação ou conceção e fabrico de equipamentos, ainda sonho e tento promover:
Estágios profissionais no terreno ou na fábrica durante e após a formação académica, em parceria com empresas do setor ou clientes finais, como se faz lá fora, nomeadamente na Alemanha que conheci de perto;
Existência de Bacharelatos ou Licenciaturas em Refrigeração e/ou AVAC, na certeza de que o emprego estará garantido;
Boa formação em Engenharia de Aplicações por forma a preparar técnicos que irão entender as necessidades do cliente final;
Como lá fora não são precisos muitos centros especializados de ensino e formação, privilegiar a qualidade e a aceitação dos seus alunos especializados no mercado em detrimento da quantidade para satisfazer políticos regionais e nacionais, como acontece noutras situações.
Gostaria ainda der deixar um desafio! Que se realizassem cursos de uma ou duas semanas de atualização e partilha de conhecimento, transversais a todas as partes envolvidas no setor da Refrigeração - clientes finais, projetistas, fabricantes de equipamento, fornecedores da cadeia logística (transportes, embalagem, gestão de instalação, fabricantes de refrigerantes, entre outros), Professores e Mestres na Profissão. Tive o privilégio de participar e muito aprender em cursos destes (duas semanas) na Universidade de Illinois, EUA, à data organizados pelo célebre Professor Stoeker. Ele dizia, e bem, que a ideia de todos exporem as suas dúvidas e expectativas potencia o enriquecimento do saber no setor, referindo sempre que “não há perguntas estúpidas”! Algo que talvez a AIPOR possa promover no futuro, apesar da mentalidade latina não ser muito aberta a juntar técnicos num anfiteatro, partilhando dúvidas, expectativas e soluções existentes ou a desenvolver!
Agradecimento: A AIPOR agradece ao Eng.º António Granjeia a disponibilidade para participar nas celebrações do Dia Mundial da Refrigeração 2026, e por ter aceitado o repto da AIPOR, que muito nos honra. Acreditamos que pensar e refletir o setor com os seus profissionais é fundamental para contribuir para o seu desenvolvimento e para um debate informado e plural!
*António Granjeia é Diretor de uma empresa de consultoria na área da Refrigeração e Engenheiro Especialista em Refrigeração pela Ordem dos Engenheiros e membro da EFRIARC, ASHRAE e IOR, Institute of Refrigeration/ UK.