Semana Global das Mulheres no Setor AVAC&R: Entrevista com Cláudia Casaca

Professora Adjunta do Departamento de Engenharia Mecânica do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL) e Ex-Presidente da EFRIARC

27 de outubro, 2026
foto de Cláudia Casaca
Crédito da Foto: Direitos Reservados
A AIPOR - Associação dos Instaladores de Portugal assinala a Semana Global das Mulheres no Setor AVAC&R, com um conjunto de entrevistas e vídeos num desafio inédito que lançou a cinco mulheres do setor em Portugal.
A iniciativa decorre de 25 a 31 de outubro de 2026, sendo o tema central «Vozes locais. Conexões globais. Uma comunidade HVACR». Reúne profissionais dos setores do aquecimento, da ventilação, do ar condicionado e da refrigeração e tem como objetivo aproximar mulheres que trabalham nesta área, através de networking e partilha de conhecimentos.

Assim, ao longo de toda a semana, partilhamos com os profissionais do setor e com a sociedade civil, através do site da AIPOR e das nossas redes sociais, várias entrevistas e vídeos de várias mulheres com provas dadas e que, ao longo das últimas décadas, construíram uma carreira exemplar no setor e que são reconhecidas em Portugal não só pelas suas competências técnicas, profissionais e humanas, mas também pelo talento em cargos de liderança que ocupa(ra)m. 

Publicamos hoje a entrevista com a Eng.ª Cláudia Casaca, Professora Adjunta do Departamento de Engenharia Mecânica do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL) e Ex-Presidente da EFRIARC.

“Que as mulheres que hoje trabalham no setor continuem a ser uma referência para as novas gerações”

AIPOR - Qual é a importância de celebrar a Semana Global das Mulheres no Setor AVAC&R e de que forma esta iniciativa pode contribuir para dar maior visibilidade ao papel das mulheres numa área estratégica para a economia, a transição energética e a sustentabilidade ambiental?

CLÁUDIA CASACA -
Considero que esta iniciativa é particularmente relevante por dar visibilidade ao contributo das mulheres num setor tradicionalmente associado a profissões masculinas, mas cuja importância para a sociedade vai muito além do conforto térmico. O AVAC&R desempenha um papel determinante na eficiência energética, na qualidade do ambiente interior, na saúde pública, na conservação de alimentos e medicamentos e na descarbonização dos edifícios e da indústria. Dar a conhecer o percurso de mulheres que trabalham nas diferentes áreas do setor, desde a investigação e o ensino até ao projeto, instalação, manutenção e gestão, é uma forma de reconhecer o seu mérito e, simultaneamente, demonstrar às novas gerações que estas profissões não têm género. Trata-se também de evidenciar que as mulheres possuem as competências e capacidades necessárias para desempenhar estas funções, devendo o seu reconhecimento profissional assentar no mérito demonstrado e na igualdade de oportunidades.
É precisamente através da divulgação de experiências e percursos profissionais concretos que iniciativas como esta podem fazer a diferença. Ao dar voz às mulheres que integram o setor, permitindo-lhes partilhar os projetos em que participam, as responsabilidades que assumem, os desafios que enfrentaram e os resultados alcançados, estamos a tornar visível um contributo que nem sempre é suficientemente conhecido ou reconhecido. Ao mesmo tempo, estamos a criar referências para as jovens que ponderam seguir estas áreas, mostrando-lhes que existem oportunidades reais de desenvolvimento profissional.
No entanto, considero que o verdadeiro impacto destas iniciativas deverá ir além da celebração. A visibilidade é importante, mas deve traduzir-se em oportunidades concretas de formação, integração e progressão profissional. Só assim conseguiremos transformar o reconhecimento numa mudança efetiva e duradoura.

AIPOR - Qual é, na sua perspetiva, a importância das mulheres que trabalham no setor AVAC&R em Portugal e de que forma o seu contributo tem sido relevante para a modernização, a inovação e a eficiência energética dos edifícios e das instalações técnicas?

CLÁUDIA CASACA -
O contributo das mulheres para o setor AVAC&R deve ser reconhecido, antes de mais, pela sua competência técnica, capacidade de inovação e participação nas diferentes atividades profissionais. A modernização do setor resulta do conhecimento e da experiência dos seus profissionais, independentemente do género, mas acredito que a diversidade de perspetivas e experiências constitui uma mais-valia para a análise de problemas e o desenvolvimento de soluções.
Em Portugal, as mulheres têm vindo a afirmar-se em diferentes áreas da engenharia, investigação, ensino, projeto, gestão técnica e empresarial, contribuindo para a evolução tecnológica e para a adoção de soluções energeticamente mais eficientes e ambientalmente responsáveis.
Este contributo concretiza-se, por exemplo, na investigação e desenvolvimento de novas tecnologias, na conceção e dimensionamento de sistemas de climatização e refrigeração mais eficientes, na integração de fontes de energia renováveis, na recuperação de energia e na implementação de soluções de automação, controlo e monitorização. A participação feminina nestas atividades, tal como a dos restantes profissionais, contribui para melhorar o desempenho energético das instalações, reduzir os consumos e o impacto ambiental e assegurar condições adequadas de conforto e qualidade do ambiente interior.
Importa igualmente reconhecer o papel das mulheres na formação de novos profissionais, na transferência de conhecimento e na promoção de boas práticas de engenharia, aspetos que considero fundamentais para a modernização do setor. A inovação não depende apenas do desenvolvimento de novos equipamentos ou tecnologias, mas também da capacidade de aplicar corretamente o conhecimento e transformar soluções tecnológicas em melhorias efetivas no desempenho das instalações.
Neste contexto, considero particularmente significativo o facto de, em 2025, duas associações com intervenção relevante no setor terem sido simultaneamente presididas por mulheres: a AIPOR, pela Dra. Celeste Campinho, e a EFRIARC, cuja presidência tive a honra de exercer. Também a Comissão de Especialização em Engenharia de Climatização e Refrigeração da Ordem dos Engenheiros passou a ser coordenada pela Eng.ª Odete Almeida. Estes exemplos demonstram que as mulheres têm vindo a conquistar o reconhecimento necessário para assumir funções de liderança e representação institucional, contribuindo para o debate técnico, a partilha de conhecimento e a definição de orientações para o desenvolvimento do setor.
Contudo, considero que o setor ainda não aproveita plenamente o potencial feminino disponível. Precisamos de criar condições para que mais mulheres ingressem nestas profissões, permaneçam nelas e tenham oportunidades de assumir funções técnicas e de liderança.
A valorização das mulheres não deve ser encarada apenas como uma questão de igualdade de oportunidades, mas também como uma forma de reconhecer o mérito, reforçar a capacidade técnica, promover a inovação e aumentar a competitividade do próprio setor.

“É fundamental despertar o interesse das jovens pelas áreas científicas e tecnológicas”

AIPOR - O setor AVAC&R continua a estar associado a profissões predominantemente masculinas. Que medidas considera fundamentais para atrair mais mulheres para estas áreas técnicas e tecnológicas, desde a formação profissional e o ensino superior até à integração e progressão nas empresas?

CLÁUDIA CASACA -
Na minha perspetiva, este desafio deve começar muito antes da entrada no mercado de trabalho. É fundamental despertar o interesse das jovens pelas áreas científicas e tecnológicas, mostrando-lhes, desde cedo, as possibilidades profissionais existentes e desconstruindo a ideia de que determinadas profissões são mais adequadas a homens do que a mulheres.
Aliás, esta preocupação não é recente nem exclusivamente nacional. A nível internacional, diferentes instituições têm vindo a desenvolver estudos, iniciativas e programas destinados a compreender as razões da reduzida participação feminina em determinadas áreas técnicas e a promover uma maior igualdade de oportunidades. Um exemplo é o estudo internacional desenvolvido pelo Instituto Internacional de Refrigeração e pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente, com a colaboração da Federação das Associações Ibero-americanas de Ar condicionado e Refrigeração (FAIAR), que identificou, entre as principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres no setor, os estereótipos, a falta de oportunidades de progressão profissional e as dificuldades de conciliação entre a vida pessoal e profissional. O facto de organizações internacionais considerarem necessário desenvolver iniciativas específicas nesta matéria demonstra que estamos perante um desafio estrutural, que exige uma resposta concertada.
Enquanto professora do ensino superior, também tive oportunidade de participar, no ISEL, em iniciativas e espaços de reflexão destinados a promover uma maior participação feminina nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Considerei importante dar igualmente o meu contributo, partilhando a minha experiência enquanto mulher com um percurso profissional na engenharia e no ensino superior. Estas iniciativas reforçaram a minha convicção de que é necessário atuar não apenas na sensibilização das jovens, mas também na criação de condições que favoreçam a sua integração, valorização e desenvolvimento ao longo do percurso académico e profissional.
Neste sentido, considero essencial reforçar a ligação entre as instituições de ensino e as empresas, quer ao nível da formação profissional, quer do ensino superior. A realização de atividades práticas, visitas técnicas, estágios e o contacto direto com profissionais do setor podem ajudar a dar a conhecer a diversidade de oportunidades existentes, desde as funções de instalação e manutenção até às áreas de projeto, investigação e gestão. É igualmente importante proporcionar às jovens referências femininas com as quais se possam identificar e que lhes permitam encarar estas profissões como uma possibilidade real de futuro.
Contudo, não basta incentivar a entrada de mulheres no setor. É igualmente necessário assegurar condições para a sua permanência e valorização profissional. As empresas têm aqui uma responsabilidade fundamental, promovendo processos de recrutamento transparentes, igualdade de remuneração para funções de igual valor, acesso à formação contínua e oportunidades efetivas de progressão, assentes na competência e no mérito profissional.
Considero ainda particularmente importante a existência de programas de mentoria e a divulgação de percursos profissionais femininos, envolvendo tanto engenheiras como técnicas de instalação e manutenção. O acompanhamento por profissionais experientes pode contribuir para reforçar a confiança das jovens, facilitar a sua integração e ajudá-las a ultrapassar algumas das dificuldades que possam encontrar ao longo da carreira.
As mulheres que hoje trabalham no setor podem desempenhar um papel decisivo ao mostrar às mulheres de amanhã que vale a pena seguir estas áreas profissionais. Mas, para que essa mensagem seja credível, é indispensável que encontrem oportunidades reais de desenvolvimento e reconhecimento, assentes na competência e no mérito profissional.

AIPOR - Num contexto de transição energética, descarbonização e crescente exigência de competências técnicas especializadas, que mensagem gostaria de deixar às mulheres que já trabalham no setor AVAC&R e às jovens que ponderam construir o seu futuro profissional nesta área?

CLÁUDIA CASACA -
Às mulheres que já trabalham no setor, gostaria, antes de mais, de expressar o meu reconhecimento e agradecimento a todas as que, através do seu trabalho, competência e determinação, têm contribuído para desbravar caminho numa área tradicionalmente masculina. Faço-o não apenas enquanto profissional, mas também enquanto mulher e mãe, consciente da importância que estes percursos e exemplos representam para as gerações seguintes.
Gostaria igualmente de as incentivar a continuar a investir na sua qualificação, a partilhar o seu conhecimento e a assumir um papel cada vez mais ativo nas decisões técnicas e estratégicas do setor. A sua experiência e o seu percurso constituem uma referência importante para as novas gerações, demonstrando que é possível construir uma carreira de sucesso nestas áreas.
Às jovens que ponderam seguir uma carreira no AVAC&R, diria que não deixem que os estereótipos condicionem as suas escolhas. Acreditem nas vossas capacidades e procurem conhecer as oportunidades que este setor oferece. Trata-se de uma área tecnologicamente exigente, em permanente evolução e com percursos profissionais muito diversificados, desde a formação técnica especializada até à engenharia, investigação e gestão, onde é possível aplicar conhecimentos científicos e técnicos na resolução de problemas com impacto direto na sociedade e no ambiente.
Vivemos um período de profunda transformação tecnológica, impulsionado pelas exigências de eficiência energética, descarbonização e sustentabilidade ambiental. A utilização de novos fluidos frigorigéneos, a digitalização, a automação e o desenvolvimento de sistemas cada vez mais eficientes colocam novos desafios, mas também criam oportunidades para profissionais com espírito crítico, capacidade de inovação e disponibilidade para uma aprendizagem contínua.
Na minha perspetiva, a transição energética só será bem-sucedida se for acompanhada por uma verdadeira transição técnica, sustentada no conhecimento, na competência e no rigor das decisões de engenharia. É precisamente neste contexto que considero fundamental incentivar a participação de novos profissionais, independentemente do género, capazes de contribuir para o desenvolvimento e aplicação de soluções tecnicamente adequadas e ambientalmente responsáveis.
Gostaria, por isso, que as mulheres que hoje trabalham no setor continuassem a ser uma referência para as novas gerações e que as jovens que ponderam seguir estas profissões encontrassem nelas a confiança e a motivação necessárias para construir o seu próprio percurso. Temos pela frente desafios técnicos e ambientais de enorme exigência, mas também oportunidades para contribuir para um futuro mais eficiente e sustentável. Acredito que o talento, o conhecimento e a determinação das mulheres têm muito para acrescentar a esse futuro, e espero que cada vez mais jovens escolham fazer parte dele.

“Setor atravessa um período de profunda transformação”

AIPOR - Que radiografia traça do mercado em Portugal atualmente e que desafios temos pela frente?

CLÁUDIA CASACA -
Considero que o setor AVAC&R em Portugal atravessa um período de profunda transformação, marcado por importantes oportunidades de desenvolvimento e por desafios técnicos, económicos e organizacionais exigentes.
Temos empresas e profissionais com elevada competência técnica, capacidade de inovação e experiência reconhecida, inclusivamente a nível internacional. Contudo, o mercado apresenta realidades distintas e continuamos a enfrentar dificuldades estruturais, particularmente ao nível da escassez de profissionais qualificados, da valorização da formação técnica e da necessidade de uma maior articulação entre os diferentes intervenientes do setor.
A evolução do enquadramento regulamentar europeu, associada às exigências de eficiência energética, descarbonização e sustentabilidade ambiental, está a acelerar mudanças significativas nas tecnologias e nas práticas de projeto, instalação e manutenção. A modernização do parque edificado, a crescente utilização de bombas de calor, a adoção de fluidos frigorigéneos de menor impacto climático, a recuperação de energia e a integração de sistemas de automação, controlo e monitorização constituem oportunidades relevantes para o desenvolvimento do mercado nacional.
No entanto, estas mudanças exigem novos conhecimentos, competências especializadas e uma atenção reforçada à segurança e ao desempenho efetivo das instalações. Um dos grandes desafios será assegurar que a evolução tecnológica é acompanhada por uma efetiva qualificação dos profissionais. Não basta dispor de equipamentos tecnologicamente avançados. É necessário garantir que os sistemas são corretamente concebidos, dimensionados, instalados, colocados em funcionamento e mantidos, de forma a assegurar o seu desempenho ao longo da vida útil.
Considero igualmente fundamental ultrapassar uma visão ainda demasiado centrada no investimento inicial, passando a valorizar o desempenho energético, os custos de exploração e manutenção e o impacto ambiental das soluções ao longo do seu ciclo de vida. A verdadeira eficiência de uma instalação não depende apenas das características dos equipamentos selecionados, mas da qualidade do projeto, da execução e das condições em que o sistema efetivamente funciona.
Mas existe uma outra preocupação que considero particularmente relevante, também pela minha ligação ao ensino superior: temos conhecimento, temos competência e formamos jovens tecnicamente qualificados, mas nem sempre o mercado nacional consegue criar condições suficientemente atrativas para os integrar, valorizar e reter.
Ao longo do meu percurso enquanto docente, tenho constatado a importância que os jovens atribuem às oportunidades de desenvolvimento profissional e ao reconhecimento das competências adquiridas. Quando, no início da sua vida ativa, não encontram condições de integração, remuneração ou perspetivas de progressão que correspondam às suas expectativas, é natural que procurem alternativas noutros mercados, sobretudo num setor em que as competências técnicas especializadas são valorizadas internacionalmente.
Não considero negativa a mobilidade internacional dos profissionais. Pelo contrário, a experiência adquirida noutros contextos pode ser extremamente enriquecedora. O que me preocupa é que a saída para o estrangeiro possa resultar, não de uma escolha de desenvolvimento profissional, mas da perceção de que as suas competências não são suficientemente valorizadas em Portugal.
Precisamos de demonstrar que, apesar de sermos um país de pequena dimensão, temos capacidade para reconhecer, valorizar e proporcionar oportunidades de desenvolvimento aos nossos profissionais especializados. Essa valorização deve traduzir-se em condições de integração adequadas, remuneração compatível com as responsabilidades e competências exigidas, formação contínua, perspetivas de progressão e oportunidades de participação em projetos tecnicamente estimulantes.
Neste contexto, considero fundamental reforçar a cooperação entre fabricantes, projetistas, instaladores, entidades reguladoras, associações profissionais e instituições de ensino. A articulação entre estes intervenientes será determinante para aproximar a formação das necessidades do mercado, promover a inovação, valorizar as competências técnicas e transformar as exigências regulamentares em melhorias concretas no desempenho das instalações.
É igualmente importante que o setor saiba aproveitar todo o talento disponível, criando oportunidades para uma maior participação das mulheres nas diferentes atividades técnicas e empresariais, contribuindo para ampliar a base de profissionais qualificados de que necessitamos.
Acredito que Portugal dispõe do conhecimento, da competência e da capacidade necessários para responder aos desafios que se colocam ao AVAC&R. O verdadeiro desafio será criar condições para que esse conhecimento seja valorizado, se traduza em soluções tecnicamente rigorosas, eficientes e sustentáveis e contribua para o desenvolvimento de um setor mais competitivo, capaz de atrair e reter os seus profissionais.
 

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