Semana Global das Mulheres no Setor AVAC&R: Entrevista com Isabel Sarmento

Engenheira Mecânica e Especialista em Climatização e Refrigeração

28 de outubro, 2026
foto Isabel Sarmento
Crédito da Foto: Direitos Reservados
A AIPOR - Associação dos Instaladores de Portugal assinala a Semana Global das Mulheres no Setor AVAC&R, com um conjunto de entrevistas e vídeos num desafio inédito que lançou a cinco mulheres do setor em Portugal.
A iniciativa decorre de 25 a 31 de outubro de 2026, sendo o tema central «Vozes locais. Conexões globais. Uma comunidade HVACR». Reúne profissionais dos setores do aquecimento, da ventilação, do ar condicionado e da refrigeração e tem como objetivo aproximar mulheres que trabalham nesta área, através de networking e partilha de conhecimentos.

Assim, ao longo de toda a semana, partilhamos com os profissionais do setor e com a sociedade civil, através do site da AIPOR e das nossas redes sociais, várias entrevistas e vídeos de várias mulheres com provas dadas e que, ao longo das últimas décadas, construíram uma carreira exemplar no setor e que são reconhecidas em Portugal não só pelas suas competências técnicas, profissionais e humanas, mas também pelo talento em cargos de liderança que ocupa(ra)m. 

Publicamos hoje a entrevista com a Eng.ª Isabel Sarmento, Engenheira Mecânica e Especialista em Climatização e Refrigeração.

«O setor do AVAC&R está no centro de muitos dos desafios atuais»

AIPOR - Qual é a importância de celebrar a Semana Global das Mulheres no Setor AVAC&R e de que forma esta iniciativa pode contribuir para dar maior visibilidade ao papel das mulheres numa área estratégica para a economia, a transição energética e a sustentabilidade ambiental?

ISABEL SARMENTO -
Entendo a celebração da Semana Global das Mulheres no Setor AVAC&R (Aquecimento, Ventilação, Ar Condicionado e Refrigeração) em duas vertentes distintas, mas que se complementam, isto é, como uma oportunidade de dar visibilidade às mulheres que trabalham no setor, contribuindo para uma maior igualdade de oportunidades, mas também como uma oportunidade para o próprio setor, destacando a sua relevância para o mundo atual e assim atrair mais pessoas para a profissão.
O setor do AVAC&R está no centro de muitos dos desafios atuais, nomeadamente a eficiência energética e a descarbonização como eixos da sustentabilidade. É, sem dúvida, um setor estratégico que necessita de ter profissionais em número suficiente e com competências adequadas para responder aos desafios que se lhe deparam no presente e também no futuro. Tem, por isso, elevado valor para a economia ao gerar emprego qualificado e ao impulsionar a inovação tecnológica, em resposta às necessidades dos setores da indústria, do comércio e serviços e da habitação.
O AVAC&R vai muito além do nosso conforto ou do nosso frigorífico, mas só lhe damos a devida importância quando nos falham. Sem nos apercebermos, é um setor fundamental ao mundo tal como o conhecemos. A segurança alimentar, a conservação de vacinas e medicamentos, os hospitais, os centros de dados e a aviação, entre outros exemplos, só existem porque o saber e a tecnologia do AVAC&R evoluíram para os sustentar. Dar visibilidade e importância ao setor é um passo para atrair profissionais. Dar a conhecer mulheres profissionais do setor permite desmistificar estereótipos e incentivar a igualdade.

AIPOR - Qual é, na sua perspetiva, a importância das mulheres que trabalham no setor AVAC&R em Portugal e de que forma o seu contributo tem sido relevante para a modernização, a inovação e a eficiência energética dos edifícios e das instalações técnicas?

ISABEL SARMENTO -
O contributo das mulheres que trabalham no AVAC&R em Portugal é relevante, senão fulcral, pois estão em funções onde a modernização do setor se decide: a engenharia de conceção, de construção e de produção, a certificação energética, o ensino e a investigação, a gestão, a regulamentação e até a formação de opinião.
É um facto que, as mulheres que trabalham no AVAC&R em Portugal são, ainda, uma minoria e, pela minha perceção, estão mais concentradas na área técnico-científica, mas também na área técnico-comercial, no jornalismo e, gradualmente, na direção e fiscalização de obra e na indústria do setor. Já enquanto técnicas de operações diria que serão inexistentes ou em número insignificante. Detêm, de um modo geral, formação académica superior e integram o quadro superior da empresa ou instituição a que pertencem.
Apesar de o setor ser predominantemente masculino, as mulheres engenheiras do AVAC&R em Portugal têm vindo a assumir papéis de destaque nas associações profissionais, como a Ordem dos Engenheiros ou Associação Portuguesa dos Engenheiros de Frio Industrial e Ar Condicionado, o que, por si só, revela o reconhecimento profissional pelos seus pares.

AIPOR - O setor AVAC&R continua a estar associado a profissões predominantemente masculinas. Que medidas considera fundamentais para atrair mais mulheres para estas áreas técnicas e tecnológicas, desde a formação profissional e o ensino superior até à integração e progressão nas empresas?

ISABEL SARMENTO -
No presente, julgo que a conjugação de duas realidades, uma do lado da oferta e outra da procura, potencia a entrada de jovens mulheres nesta área do mercado de trabalho. Do lado da procura, todos os desafios que se levantam ao setor há, a crescente e premente, necessidade de profissionais com adequadas competências técnicas é crescente. Do lado da oferta, há uma mudança de paradigma, caraterizado, nas últimas décadas e em particular nos últimos anos, pelo crescendo da engenharia em atrair jovens mulheres. Há cursos até onde já predominam. No caso da engenharia mecânica, aquele que promove a mais adequada formação para o setor, tal ainda não acontece, mas já está muito além do que era há 20 ou mais anos. Esta realidade já teve impacto no mercado de trabalho e tem tendência para incrementar que a presença de mulheres em áreas predominantemente técnicas, como é o caso do setor do AVAC&R.
Parece-me que o mesmo já não se passa nos cursos médios técnico-profissionais, que não conseguem ganhar atratividade para os jovens, mulheres ou homens, o que é uma enorme falha do ensino em Portugal e que se reflete negativamente na economia e no mercado de trabalho. Sendo uma questão de mercado e, por isso, de competitividade, é fundamental que o setor inove e valorize os seus profissionais, com condições atrativas em termos salariais, de formação contínua e de qualidade de vida, à altura das suas legítimas expectativas, para atrair mais jovens, mulheres incluídas, e fixar os melhores. Complementarmente, é preciso promover o ensino técnico-profissional junto de ambos os sexos, aproximar as escolas das empresas do setor e dar a conhecer, desde cedo, as carreiras e as mulheres que já as exercem.

AIPOR - Num contexto de transição energética, descarbonização e crescente exigência de competências técnicas especializadas, que mensagem gostaria de deixar às mulheres que já trabalham no setor AVAC&R e às jovens que ponderam?

ISABEL SARMENTO -
A mensagem passa por incentivar as mulheres que já estão no setor AVAC&R a crescerem profissionalmente e de promoverem a sua a visibilidade; às jovens, a certeza de que esta é uma área com futuro e que precisa delas. O desafio que julgo válido, quer para quem está no setor de atividade do AVAC&R, quer para quem iniciar o seu trajeto profissional naquele, assenta em 3 vetores: rigor no trabalho, atualização técnica constante e participação ativa nas instituições profissionais.
O rigor técnico é a base, mas sem atualização às constantes mudanças, facilmente se torna obsoleto e, por isso, descartável. Estar a par da inovação e das melhores práticas é o que faz a diferença entre acompanhar a mudança ou liderá-la. Participar nas associações e ordens profissionais e em conferências técnicas é uma oportunidade de crescimento profissional, de conhecer outros profissionais e criar contactos, além de tornar a profissão e o setor mais visível e, necessariamente, mais forte.
 

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